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Carta ao Destino

14 agosto 2015




Querido destino,

Eu e minha vida estamos preocupados com você. Ou melhor, eu, minha vida e minha sanidade mental. Às vezes acho que a culpa é minha, por sempre ter confiado tanto em você e deixado você decidir como as coisas seriam. Claro que já dei minhas interferidas, meus empurrõezinhos, mas sempre tive a sensação de que é inútil e que você que realmente comandou tudo. Sei que você é muito amigo do tempo - esse danado que parece se arrastar quando a gente quer dormir e acordar daqui a  3 meses e voar quando temos 38 trabalhos pendentes da faculdade. Então, mesmo sem saber bem qual endereço colocar nessa carta, venho através desta fazer um pedido: deem um jeito, ok? Isso mesmo que você leu, destino. Pegue seu amigo tempo pela mão e deem um jeito nas coisas por aqui, antes que eu enlouqueça. Sabe que nunca enchi seu saco e pouco o questionei, mas como boa humana de carne, osso e coração, também me revolto.

É bem verdade que você encaixa as coisas, não precisa responder esfregando isso na minha cara. Mas às vezes você me coloca em cada uma... hoje mesmo, são 3 da manhã, eu deveria estar dormindo pois daqui a pouco já tenho que levantar e encarar um novo dia que você preparou pra mim. E adivinhe? Estou aqui tentando entender de onde viemos, para onde vamos e porque meu celular não toca. A cada sinal que esse aparelho emite, meu coração quase sai pela boca, mas é sempre alarme falso: ou é o surfista bonitinho que dá oi pras pessoas na rua fazendo um sinal de hang loose, ou é o nerd que atira pra vários lados, ou o projeto de Lucas Lucco que não consegue formular uma frase inteira. Com sorte, tem aquele com quem rola uma conversa bem produtiva, é razoavelmente bonito, estuda, trabalha e gosta de se divertir, mas as nossas exatidões não tem somado numa conta de mais. Você parece estar se divertindo com isso, né? 

De fato, nenhum desses me interessa. Até interessariam em outra fase da vida. Antes daquele menino largado, vadio, bem humorado, espirituoso, pervertido, carinhoso, bom de papo, bom de lábia e bom de cama, seja dormindo ou acordado. E agora estou aqui desqualificando uns e qualificando outro como se isso influenciasse alguma coisa. Ah, destino, você me conhece e bem sabe que isso não tem nada a ver. Ninguém se apaixona pelas qualidades da pessoa. A gente se apaixona pela pessoa. E todas que você colocou por aqui até agora tem qualidades admiráveis, mas você as coloca por aqui, damos umas voltas e quando vi, a pessoa dobrou numa rua que nunca mais cruzou com a minha. Porquê você faz isso, hein? A propósito, eu sei que você me ensinou a não julgar ninguém, então, desculpa essas características que atribuí pra todos esses caras, mas você entendeu, né? Só quero que você não continue me tirando as coisas que me dá. 

Por favor, caríssimo, não me entenda mal. E nem faça muita fofoca minha pro tempo, pois por mais que eu reclame, muito ele já me consolou. Não estou criticando a eficácia de vocês, mas tenho precisado de uma agilidade no trampo, estamos entendidos? Deus me livre ficar de mal com vocês! Já basta o amor - aquele cretino - que volta e meia vem, pede desculpas, fazemos as pazes, conhecemos alguém (geralmente apresentado por você) e daqui a pouco brigamos. Cansei dessa rotina de confiar em você, viver em altos e baixos com o amor e acabar no colo do tempo, ganhando cafuné dele e comendo brigadeiro. Então é assim que me despeço, com afeto e fé no meu pedido de colocar por aqui só o que puder ficar. Mil beijos e bom trabalho!

Não me deixe para mais tarde

09 agosto 2015





Olha, eu te conheço. Te conhecia antes mesmo de te encontrar. De outras vidas. De um outro universo. E sei que te conheço há tanto tempo porque uma ligação única como essa não pode ser tão atual assim. E posso te dizer uma coisa? Nossa apresentação não precisa ser ensaiada, cheia de jogos, charmes e medos. Te digo tudo sobre mim, pode perguntar. Te conto que não tenho medo de ser eu mesma, gosto de ter meu próprio espaço, mas preciso de uma pessoa que não me deixe afundar em mim.

Eu sou extremamente apaixonada pelo agora, mas não fui assim a vida toda, não viu? Sempre me prendi demais ao passado. Era um passo em direção ao futuro, e vários outros correndo em direção ao ontem inacabado. A gente aprende, moço, que a vida precisa ser vivida. Estamos aqui pra cair e aprender, sabe? Quebrar a cara mesmo e chorar e sorrir e chorar mais um pouquinho e renascer, sem vírgulas e sem medo. 

Precisamos constantemente nos lembrar da intensidade que vive dentro da gente. É preciso um peito em chamas, um coração saltando à boca, uma adrenalina segura que nos mantém vivos e acordados. Essa história de viver de passado é cansativa demais. De nada adianta lermos os mesmos livros, vivermos as mesmas histórias, ouvirmos as mesmas desculpas, porque o final é sempre o mesmo: solitário. E eu cansei de ser sozinha, moço.

Eu quero tudo agora. Quero experimentar o gosto da vida a cada instante, sem esperar a hora certa para nada. Somos nós que criamos nosso momento, entende? E é preciso coragem para escrever a própria história. Então, por favor, não me deixe pra depois, não. Nem pra mais tarde. Nem pra daqui a pouco. Entenda que a vida passa muito rápido e o amor pode ser levado da gente em um descuido qualquer.

Tenha necessidade de mim. Tenha necessidade da vida. Busque a ânsia de viver seus melhores momentos hoje. Tenha pressa. Sinta profundamente. Ame com todo coração. Não racionalize esse sentimento tão bonito e essa ligação tão forte que temos hoje. Vamos buscar a coragem que nos falta para vivermos intensamente. Que tenhamos pressa de ser feliz e urgência de amor, moço. Porque é disso que a vida é feita e é assim que quero viver.

Depois

06 dezembro 2014



Depois de muito pensar, depois de muito bater com a cabeça na parede e apanhar na cara, eu entendi que o mundo é movido por reciprocidade. Eu não sei onde foi que perdi o senso e fui tão além na minha falta de amor próprio e te dei mais do que recebi. Mas, é pra isso que a gente vive, não é? Pra saber o certo, fazer o errado e ainda assim se sentir vivo. 

Depois de muito sentir, depois de muito sangrar e depois de gastar muito lenço de papel com nariz entupido por quem não valia a pena eu entendi que o mundo dá voltas. E isso é um processo natural, não tem o que ser feito. Foi depois de desidratar por você que te tive em minhas mãos, mas então... ah, então já era tarde, eu  estava gastando lenços de papel por outro e era pra arrumar o batom que ele borrava, e não o rímel.

Depois de muito sorriso forçado e alegria que não era minha, eu entendi que é preciso se recolher pra se curar. Não tem festa, porre ou ficada que vá apagar aquela pessoa que até pouco tempo atrás segurava a barra do seu lado, segurava o seu copo de cerveja, segurava a onda pra te ver sorrir e segurava as palavras rudes pra não te fazer chorar. Não dá pra compensar sentimento com coisas que não fazem sentido. Mas dá pra aprender a se sentir feliz sozinha de novo e isso acontece aos poucos.

Depois de muito cuspir no prato em que comi e depois de muito achar que superação era sinônimo de esquecimento entendi que há como lembrar sem dor, mas esquecer o que já tirou o seu sono, não. Não se esquece um furacão depois que ele passa, nem mesmo depois que se juntam os destroços e se limpa a bagunça. Não se passa reto na rua por quem já foi alvo das suas SMS de madrugada e se fica apático. Sempre vai haver um barulhinho no fundo da alma, um pequeno tremor, uma saudade escondida e um perdão nunca dito pelos erros de ambos. 

Depois de muito sentir, eu entendi que vou continuar sentindo. Depois de muito errar, eu entendi que vou continuar errando. Depois de muito aprender, eu entendi que vou continuar aprendendo. Depois de muito viver, eu entendi que vou continuar vivendo. Mas, principalmente, mesmo depois de muito doer, eu entendi que vou continuar amando.



Pode ir embora

19 junho 2014



Todas as frases, textos e trechos que me diziam para te esquecer nunca fizeram muito sentido. Todas as rezas da minha mãe e súplicas das minhas amigas, sempre foram em vão. Me cansei de bater de frente com o “você precisa virar a página, se quiser começar um novo capítulo”. Tentei a escrita, música e até um novo amor, mas sempre terminei em você. Hoje, depois de tanto tempo vivendo às cegas, tudo parece muito óbvio e claro. Então, te liberto. Pode seguir seu caminho em paz.

Depois de tantas idas e vindas, memorizei o caminho de volta para casa. O beco sombrio da rua 12 não me assusta mais. Logo, não preciso de você para passar por ele. A verdade é que você se afastou demais, sabe? Repentinamente e demasiadamente. Graças a Deus o ser humano tem essa capacidade enorme de adaptação. Se dependesse de mim, levaria anos. Mas acontece que mesmo não querendo, a gente se acostuma. Mesmo não suportando algumas coisas, a gente aprende a lidar. 

Sua ausência se tornou constante. Meu cachorro se acostumou com o canto vazio da cama e nem chora mais quando olha para ele. Acredite, eu também não. Aprendi, entre choros e filmes dramáticos, que o maior drama da vida é se submeter a esse sofrimento louco e doentio por quem nunca mereceu.

Pode seguir seu caminho, vai. Pode pegar a mala onde você escondeu todas as minhas lembranças e jogar bem longe. Ou abandonar em qualquer canto para que algum estranho me encontre perdida por aí. Só sei que não te pertenço mais. Talvez isso tenha acontecido há muito tempo. Digo, você abriu mão de nós antes de eu abrir mão de você. Dizem que a ordem dos fatores não altera o produto, descobri pelo nosso romance que isso só funciona na matemática mesmo. No meu caso, alterou o romance, as atitudes, os sorrisos... Tudo. Me perdoe por ser a última a abandonar o barco. Estou saindo, deixei a casa limpa e vou apagar a luz.

Não vou mais me importar se você não lembrar a data do meu aniversário, nem vou esperar ansiosa pela sua ligação. Não vou mais segurar uma lágrima, nem pedir perdão. Cansei de me culpar por um fim que foi mais seu do que meu. Cansei de sentir a falta de ar tomando conta de mim na busca incansável de te alcançar. Eu cansei de você e de nós e de ser estupidamente idiota quando o assunto é você. Eu cansei de me importar. Pode ir embora, aqui já não é mais o seu lugar.

*Texto inspirado na música Veranizar - Léo Fressato.

Ame mais e sem medidas

31 maio 2014



Quantas pessoas você já perdeu em sua vida? Minha pergunta é bem genérica porque não se trata de momentos específicos, e sim sobre perdas. Um dia desses minha amiga me perguntou se eu sentia falta do meu avô. A única coisa que eu conseguia pensar era: como não sentir? Ele acompanhou meu crescimento, fez um papel de pai insubstituível (porque perdi o meu aos 8 anos de idade) e faleceu quando eu tinha acabado de fazer 19 anos. Ele era forte, saudável e enxuto aos 87 quando me deixou. Acho que justamente por isso foi um baque de cair o queixo, a estima e a vontade de qualquer coisa. O que me entristece mesmo é que essas coisas acontecem quando a gente não está esperando, entende? Eu havia começado 
em meu primeiro emprego de verdade quando ele adoeceu. E, justamente por se tratar do primeiro emprego, por mais que eu quisesse, eu não podia simplesmente abandonar tudo e ficar com ele para sempre. E é nessa deixa que minha consciência pesa tanto.

Eu queria que Deus mandasse um sinalzinho dizendo: “ei, hora de se despedir!”, e talvez assim eu não sentisse um aperto tão grande ao me lembrar das pessoas que se foram sem ter aquela despedida que fizeram por merecer a vida toda. Sem ter aquele carinho absurdo que deram sem esperar reciprocidade alguma. Se eu soubesse que seria a última vez, teria permanecido quieta no quarto, segurando a mão dele e dizendo palavras confortáveis e bonitas. Se eu soubesse que maus tempos estavam chegando, teria largado o emprego e passaria tardes inteiras assistindo a Vale a Pena Ver de Novo ou Sessões da Tarde sem qualquer pesar por ficar sem grana no final do mês. Eu passaria mais dias e tardes e noites ouvindo suas histórias. Mas você sabe, na vida nada é tão perfeito, nem tão justo.

Atualmente tenho 21 anos, não tenho avós, nem pai e muitos tios já se foram. Não estou dizendo isso para atrair a piedade de ninguém, é apenas um apelo para que você acorde: a vida passa, e passa depressa demais! Tire um dia de folga e aproveite sua família como se fosse seu último dia com ela. Ou talvez você nem precise de folga, só precisa mudar um pouco seus hábitos. Ao invés de ficar trancado no quarto ouvindo música ou bisbilhotando a vida alheia em redes sociais, se dê a liberdade de rir com coisas bobas na mesa do jantar. Troque suas grosserias por gentilizas. Não há felicidade, nem momento, nem dinheiro no mundo que compre uma tarde em um lar que transborde amor pela presença de pessoas queridas.

A vida não te dá a chance de se despedir, nem de compensar o tempo perdido. E quando a gente vê, já foi. Por isso deixe seu orgulho de lado e aproveite seus momentos tão especiais e únicos. “Dê valor as pessoas enquanto elas estão por perto, pois saudade não será motivo para que elas voltem.” E o aperto que fica no peito, dificilmente sara. Então abrace, beije, ame e aproveite as pessoas com quem você se importa de verdade. 

Não há, no mundo, orgulho que substitua a leveza de um ‘eu te amo’ ou um ‘eu me importo com você’ dito sem restrições.

Quando duas metades se encontram

26 abril 2014




Ah, esse Vinícius! Comecei a noite ouvindo um sambinha bom, desses que nos faz refletir demais. E em uma das letras, eis que ele me diz “A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida.” E como, meu Deus! Eu pego esses trechos e voo para um passado onde tudo deixou de ser felicidade para virar memória. E de repente o sambinha pula de bom para melancólico. E minha vida de perfeita, para um amontoado de despedidas.

Já deixei tanta gente passar batido. Já me deixaram passar tantas vezes também. Já segui em frente deixando lágrimas em rodoviárias, aeroportos e países diferentes. Segui por estradas desconhecidas para encontrar meu próprio caminho e me perdi inúmeras vezes. Nunca me importei em cair. Nunca desisti de me encontrar, nem de encontrar a pessoa que fizesse meu coração bater mais forte em plena calmaria. Na verdade, eu nunca soube muito bem pelo o quê procurar, mas sabia que o encontro valeria a pena se a busca fosse de corpo e alma. E foi. E é. E sempre será.

As despedidas acontecem para que o novo possa chegar. Aquilo que não se encaixa em nosso modo de viver, dá espaço para que outro feito perfeitamente para nosso molde tome seu espaço. E eu vejo que a magia que envolve o encontro de duas almas marcado há milhares de anos é simples e clara. Porque você percebe porque não deu certo com os outros que passaram antes. E entende porque superou tão rápido e sem melodrama. O que tem de ser, será. Embora tantas idas se façam necessárias neste percurso.

E de repente, ele chega. Sem eu procurar, chega sem avisar e toma tudo o que é dele – e sempre foi - por direito. Não marcamos um horário, nem premeditamos a data e o lugar. No meio dessas tantas impossibilidades e frustrantes probabilidades aconteceu nosso encontro. Houve aquele lapso que nos diz quem é o amor da nossa vida, sabe? No meio de tudo e ao mesmo tempo de tanto vazio, achamos um lar para chamar de nosso e um coração para chamar de lar. E eu descobri que quando é para ser, você pode tentar fugir, mas até as pedras no caminho se transformam em trilhas só para nos jogar nos braços do nosso destino.

 
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